06/02/2007 17h17-Brasília, DF - No primeiro discurso no plenário da Câmara dos Deputados depois de tomar posse, o deputado Clodovil Hernandez (PTC-SP) conseguiu calar os parlamentares presentes à sessão na tarde desta terça-feira após ironizar o barulho provocado pelos colegas.
Visivelmente irritado com as conversas paralelas no plenário, Clodovil comparou a Câmara a um "mercado" popular. "Eu não sei o que é decoro [parlamentar] com um barulho desses enquanto a gente fala. Parece um mercado e isso aqui é a Casa do povo. Não entendo tanto barulho. Nem na TV, que é popular, as pessoas fazem isso", criticou.
A "bronca" nos deputados ocorreu depois de discursar por cerca de dez minutos no plenário. Sem conseguir a atenção dos colegas, o deputado reagiu atingindo o seu objetivo: os mais de 350 deputados presentes na sessão fizeram silêncio para acompanhar as palavras de Clodovil.
No discurso, o deputado pregou o amor e a bondade como ferramentas capazes de melhorar a atuação da Câmara. "Se eu amo a Deus, não tenho medo. O que quero é amar vocês. (...) Defendo a bondade em cada ato desta Casa, porque sei, por experiência própria, que a bondade cura mais do que qualquer remédio", afirmou.
Segundo Clodovil, a bondade é um sentimento capaz de "dar uma nova chance" a qualquer pessoa --inclusive a quem cometeu "os sete pecados capitais". O deputado conclamou os colegas a superarem a avareza, a soberba, a preguiça e a inveja para que consigam efetivamente trabalhar pelo país. "É disso que o Congresso brasileiro precisa, de uma nova chance, de um novo olhar", afirmou.
Bordão Clodovil admitiu, ao discursar para os deputados, que "em nenhum momento" desejou se tornar deputado federal. "Após ter construído uma carreira sólida e de sucesso como estilista e comunicador, chego aos 70 anos dando uma dessas guinadas inesperadas", disse.
Os deputados Luiza Erundina (PSB-SP) e Paulo Maluf (PP-SP) interromperam o discurso de Clodovil para elogiar a expressiva votação do deputado --que chegou à Câmara com mais de um milhão de votos.
"Não posso deixar de me congratular com Vossa Excelência, que diz por fora o que está pensando por dentro. Vossa Excelência vai ser um dos mais ativos, polêmicos e respeitados deputados desta Casa", disse Maluf.
A deputada Gorete Pereira (PR-CE) também interrompeu o discurso de Clodovil para elogiar o colega e, ao final de sua intervenção, o deputado afirmou: "Me desculpe, mas eu não sei o nome da senhora".
Já o líder do PTC na Câmara, Carlos William (MG), disse que Clodovil tem o dever de expressar os seus sentimentos no plenário, sem censuras. "O que assistimos até agora não atingiu nem a honra nem a imagem deste Parlamento", disse William.
O deputado finalizou o discurso com o bordão que marcou sua campanha à Câmara Federal. "Tenho certeza de que ao praticarmos a política com bondade, Brasília nunca mais será a mesma, nem o Brasil."
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SÉRGIO RIPARDO Editor de Ilustrada da Folha Online
Há 20 anos, um cantor gay, tipo Renato Russo, lançou "Faroeste Caboclo", um torpedo de 9 min, repleto de versos ousados no governo do ex-presidente José Sarney ["E não protejo general de dez estrelas/Que fica atrás da mesa com o cu na mão"]. Como diria Clodovil, Brasília nunca mais foi a mesma, e a juventude pré-internet acordou e perdeu o medo.
Em 1994, ano do Plano Real, veio a cantora lésbica Cássia Eller com sua "Música Urbana 2" ["Os PMs armados e as tropas de choque/ vomitam música urbana"]. Nasceu Chicão, Cássia morreu, e todo mundo teve de falar publicamente sobre os direitos de sua companheira, Maria Eugênia, que conquistou a guarda da criança.
Pedro Marra/Divulgação
Pista da festa GLS, na AABB, em Brasília
Em comum, Renato Russo e Cássia Eller respiraram a cena de Brasília. Esqueça os políticos e suas CPIs sem fim. Tampouco os economistas com seus planos e siglas de entendimento restrito. O famoso Lago Paranoá está cada vez mais cor-de-rosa, e a vida longe das repartições pulsa na capital federal.
Há festas gays pipocando na maquete de Niemeyer. Está todo mundo saindo do armário. A parada candanga já provocou o catolicismo fervendo diante da catedral. A militância também desponta. Por exemplo, a ONG brasiliense Estruturação ficou mais conhecida ao divulgar o caso de homofobia no "BBB7".
Pedro Marra/Divulgação
Promoter Lili Santana e Thales Sabino na festa
No fim de semana, rolou uma festa no salão de eventos da AABB reunindo mais de 4.000 gays e simpatizantes. Nem o temporal afugentou a turma. As pulseiras de acesso acabaram, e a produção improvisou com ingressos de papel.
"As pessoas deixam os problemas em casa e se divertem sem preconceitos", diz a empresária Lili Santana, que promove a balada mix uma vez por mês--a próxima será dia 10 de março.
"A Festa da Lili é a maior festa GLS do Centro-Oeste", conta o colunista Thales Sabino, do site "Finíssimo" e do portal gay "Parou Tudo".
Pedro Marra/Divulgação
Beto Queiroz e DJ Felipe Lira caem na farra
Mas a maior visibilidade dos gays no cerrado brasileiro está longe de significar uma trégua na violência, principalmente em locais fora do reduto da classe média. Enquanto rolava a "Festa da Lili", a polícia do Distrito Federal encontrava o corpo de Vinícius Freitas Vieira, 19, dentro de uma poça de lama às margens de uma rodovia. Ele foi morto a 11 golpes de facão na cabeça, na face, na mão direita, no cotovelo e no joelho. O crime foi registrado como homofobia. A vítima foi encontrada com R$ 8 no bolso. Vinícius era travesti e fazia programa em Taguatinga. Seu nome de guerra era Princesa.
As imagens do fotógrafo alemão Michael Reh enchem os olhos do público gay. "Sun Kissed" e "Men in Motion" são exemplos de livros que exploram o universo masculino, mostrando garotos em situações íntimas, em cartões-postais clássicos. Há quem critique esse gênero da fotografia, dizendo ser fácil pegar um monte de modelos sarados, molhar ou besuntar seus corpos com óleo, e clicá-los nus em uma praia, em preto-e-branco para dar um verniz de arte. Em seu site, há um amostra do seu trabalho.
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